Onde eu parei mesmo? Ahh sim, sim... dizia eu que o arsenal de guerra tem que ser completo, da cabeça aos pés, e que se alguma partezinha ficasse desprotegida, todo o resto ficaria comprometido, e disse também que ia falar por partes, então vamos a elas: 

Parte 1 - A roupa de baixo, segunda pele, base layer, underwear ou ceroulas (para os íntimos)
Na mochila eu trouxe uma de algodão que minha sogra maternalmente nos comprou. Sabendo que teria que andar uma quadra entre o metrô até a porta do sujinho, antes de sair do aeroporto fui até o banheiro e a vesti (gente, eu sai naquele calor de 40º dos confins de Colatina e aterrissei naquele frigorífico de -19º de Montreal, imaginem!). O caminho com pouco mais de 10 metros foi eterno. Entre a saída do metrô e a porta do sujinho, puxando uma malinha de 20 e tantos quilos numa calçada cheia de neve, paramos na portaria de 3 prédios para se aquecer. A gente deixava a mala na calçada e saia correndo para o aquecedor da recepção do prédio, imagina a cena! Na perna a sensação era que a gente estava dentro de um freezer com a calça jeans molhada. 

Demorou a gente entender o que fazia efeito. Pesquisamos muito. E a lição número um foi: ceroulas de algodão não funcionam! Aquelas que o povo do sul usa quando eles estão sentindo um "fresquinho" de 4 graus não funciona em Montreal.

O que funcionou pra gente? Nós testamos a de lã merino e a de poliéster. As duas funcionaram pra gente. A de lã é bem macia e maleável, ela te mantém quentinho principalmente quando você está em movimento, tipo caminhando pra lá e pra cá no ponto de ônibus. A de poliéster é muito comum e muito usado (e mais barata também). Fleece, Poliéster, Polartec e outros nomes que eles dão por aí, são tudo a mesma coisa: Polietileno Tereflalato (PET). Sim, é isso mesmo que você está pensando: Plástico! Procure na etiqueta da roupa qual é o material, a super-cara e a super-barata são feitas do mesmo material (100% polyester) e causam o mesmo efeito. Algumas fabricantes oferecem diferentes gramaturas, que vão até 200. O poliéster é ótimo, quente, funciona muito bem e seca rapidinho.

obs.: Tudo isso do qual eu falei até agora se trata da parte de baixo (a danada da ceroula) a parte de cima também é encontrada nos mesmos materiais, mas eu só comprei a parte de baixo, não achei necessário comprar a parte superior, quando eu falar dos casacos eu explico melhor.

Parte 2 - A calça
Essa eu aprendi com o tempo também. O jeans é frio (o algodão é frio), quando está ventando a sensação é de estar com a roupa molhada. Eu sinto muito frio nas pernas, mas eu sei que muitas pessoas nem usam nada por baixo do jeans, mas eu, eu preciso da minha "segunda pele".

Durante o inverno o ideal para os friorentos é usar calça de veludo, é bem mais quentinho. Também tem aquelas calças de esqui, eu já vi algumas pessoas usando essas calças no dia a dia, mas eu particularmente acho muito quente para ficar o dia todo em um escritório, por exemplo, e no dia-a-dia, se fica tão pouco exposto. Talvez só pra usar no trajeto casa-trabalho serve, mas tem que ter saco pra chegar lá e trocar, e antes de sair, colocar de novo, paciência que eu não tenho nem com a bota, sem dizer que quando você anda faz um barulho "xueque-xueque" muito chato. Eu acho que elas são melhores para quando for ficar muito tempo exposto, fazer alguma atividade na neve onde você possa cair e talvez se molhar. Apesar de eu ver muita gente brincando na neve, patinando ou ficando muito tempo exposto em algum evento, usando uma calça jeans ou de veludo. Confesso que eu me sinto muito confortável com minha cerou... quero dizer, underwear de poliéster e minha calça jeans, mas não sei se isso já é uma questão de costume...

Parte 3 - A meia (ou melhor, aS MeiaS)
As melhores meias são as de lã. A porcentagem de lã varia. Marido comprou uma de 100% e outra de 60% de lã merino, e preferiu a de 60%. Eu também prefiro a de 60%. Mas pé é uma parte do corpo complicada. Marido já tentou todas as alternativas e ainda não achou a infalível. Eu também já fiz todas as combinações, e para ficar muito tempo exposta, eu já testei uma meia de lã e outra de algodão, duas de lã, uma de lã e outra de poliéster...

Quando ficamos exposto, e principalmente parados, a primeira parte que começa a congelar são os dedos do pé. Eu uso a meia de algodão ou a de poliéster com elastano por fora da meia de lã, a intenção é que ela absorva a umidade do pé. Se o pé suar, ele vai refriar. Tem gente que usa uma meia sintética (elastano e poliéster) primeiro e depois a meia de lã. Isso e de cada um, cada pezinho. O jeito é descobri como seu corpo reage no frio, não tem jeito.

Parte 4 - O casaco
Casacos, tem para todos os gostos, todos os frios e todos os bolsos. Em um único casaco você pode gastar $600 dólares, e o pior? Ter o mesmo efeito de um de $100. Calma, não se assuste, eu explico: o preço está no nome que está na etiqueta, não no produto, mas disso todo mundo já sabe, não é mesmo? Pois então, você pode gastar cem dólares num casaco sem um nome super famoso ou mais de seiscentos em um Canada Goose, que é muito bonito, mas é pesado e quente, bem quente. Aí você está se perguntando: Essa pessoa está louca? Se ele é bemmm quente, então ele é bom! É sim gente, é ótimo, para temperaturas muito baixas e grande tempo de exposição, e olhe lá. Ele é tão bom, tão bom, tão bom, que você vai precisar de muito frio para usa-lo, e vai derreter se a temperatura estiver próxima de 0°. Os teens montrealenses se amarram nessa marca, e eu acho até que eles usam mais por modinha do que por frio... eu sinto calor só de olha-los com aqueles casacos dentro do metrô... rsss

Aqui na parte do casaco a idéia das layer é o que funciona. Todos os lugares são aquecidos, então você vai querer tirar o casaco quando entrar em algum lugar antes de começar a suar. Pense sempre nisso. Eu geralmente uso blusinha por baixo, um casaquinho e então o casaco de neve. Marido usa uma camiseta de algodão por baixo ou a camisa social, um casaco e então o casaco de neve, como eu. 

O casaco que usamos entre a roupa normal e o casaco de neve é de lã ou fleece (poliéster). Eu prefiro usar assim, e ir tirando conforme estiver a temperatura nos ambientes que eu entro. Os casacos de fleece que a gente comprou cumpre muito bem o papel de manter o calor embaixo do casaco de neve. Claro, se for ficar mais tempo exposto, participar de algum evento ou esquiar, vai precisa proteger o corpo melhor. 

Ficamos super bem usando o que temos para o inverno, mas claro, usamos nossas roupas para no máximo fazer uma guerra de bolas de neve, patinar, comer uns marshmallows na fogueira, um tobogã, participar de algum evento ou ir de casa para o trabalho, não estamos planejando fazer nenhuma expedição de 6 meses na Antártida, pelo menos não por enquanto ... rsss. 

Existem opções de casacos que você já compra com essas camadas. O casaco de neve, o que fica por fora, precisa ter duas funções principais: quebrar o vento (windbreaking) e ser a prova d'água (waterproof), os melhores são aqueles que além dessas duas qualidades, ainda deixam o corpo respirar. Eles vendem as partes dos casacos separas, juntas... tem diversas marcar com diversos preços. Dá pra comprar um excelente casaco por 300 dolares de uma marca famosa, e se for no período das promoções dá pra comprar esse casaco com até 70% de desconto.

Dica: durante toda a estação, quando ainda não estão rolando as big promoções, se você procurar, as lojas costumam colocar numas araras uns casacos com descontos muito bons, são aqueles com tamanhos muito pequenos ou muito grandes ou coloridos - a preferência do povo por aqui é pelo preto, o que eu até entendo por ficar "limpinho" por mais tempo e por absorver o calor do (de quando tem) sol, mas chega uma hora que a paisagem monocromática cansa. De tanto casaco preto e neve branca, uma corzinha pode alegrar um pouco. Meu próximo casaco certamente será colorido!

Bom, como eu disse, é importante saber se o produto é bom, tem muitas marcas no mercado, eu sempre procuro pesquisar os reviews dos produtos na internet antes de comprar. O casaco do marido é Patagonia e o meu é Fahrenheit, nada a reclamar.

Olha só o post ficando quilométrico novamente. Quando isso acontece, o que a gente faz? Isso mesmo, outra parte. Então já sabe, nos vemos no próximo post, nesse mesmo blog. Até lá.

Estou planejando esse post tem bastante tempo, não queria escrevê-lo até testar as possibilidades e ter uma melhor opinião. Li muito sobre o assunto (e todo mundo que está no processo), mas só mesmo depois de chegar aqui é que a gente pode entender o que é esse frio de verdade, coisa de doer os ossos. Apesar de ainda não ter definido qual é a melhor (mais a frente você entenderá porque) acho que está na hora de falar sobre o assunto e eliminar a possibilidade de que alguém lá do Sul coloque meu nome na boca do sapo, sabe? Rsrsrsrs

Quando eu terminei de escrever esse post, percebi que ele estava quilométrico e para que ele não ficasse infinito e eu acabasse cortando um monte de coisas, eu vou dividi-lo em partes, mas prometo que vou publica-las em seqüência.

Mas antes, deixa eu começar contando minha última desventura, que foi...  Num belo domingo de sol, com temperaturas em torno de 16 graus ne-ga-ti-vos (sim, um lindo sol = grande possibilidade de muito frio), me achando a verdadeira canadense, coloquei minha botinha de couro estilo-frio-de-festa-junina-no-Rio e fui linda e saltitante almoçar fora. "Vou pegar o ônibus aqui, vou saltar lá na porta do restaurante, a calçada está toda limpinha e salgadinha, ahhh.. vou colocar essa bota de neve trambolhuda e queimar o filme de toda minha produção? Não mesmo!" pensei eu toda alegrinha. Até este dia, eu achava que em Montreal, uma cidade com quase o mesmo tamanho que o Maracanã, todos tinham direitos iguais, inclusive o de ter calçadas limpinhas após quilos de tempestades de neve. Me enganei. Pra piorar a situação, chego lá no restaurante e descubro que ele tinha mudado de endereço, então eu tive que pegar outro ônibus, mudando totalmente os planos (pega outro busão - salta lá - pega de volta - casa), como se já não bastasse, quando cheguei lá no tal novo endereço, o ponto nem era perto do restaurante e eu me deparei com uma calçada com uns 10 centímetros de gelo. Isso mesmo, gelo! O que quer dizer que fazia era tempo que um tratorzinho não passava por lá. O que muito me estranhou, porque aqui no meu bairro eles começam a passar antes mesmo da neve cair.

Na hora de voltar para casa, já tinha escurecido (saco de inverno que escurece às 4 da tarde), a temperatura tinha caído mais ainda e eu precisei esperar pelo ônibus durante 5 minutos sobre uma pedra de gelo que cobria toda a calçada. O que pode significar pouco, mas eu pude sentir a friagem nos pés. Se eu estivesse com a bota de neve, não teria evitado a patinação no gelo (já que ela não tem travas de metal) mas teria evitado esfriar o pé, porque ela tem isolamento pra isso. O resultado de tudo foi 15 dias de tosse, garganta inflamada e febre, num lugar onde não tem chazinho da mamãe, nem sopinha da mamãe, nem denguinho da mamãe nem sessão da tarde para moribundos gripados do sofá da sala.

Lição do dia: não vou pensar duas vezes, estando sol ou não, vento ou não, neve ou não, -1 ou -20, vou me vestir como se estivesse indo para Oymyakon!!!

Mas de uma coisa isso tudo prestou, meu estado profundo de gripe me deixou de molho aqui debaixo do edredom e com tempo e alguma energia pra enfim, começar a escrever esse post.

Agora você já sabe que a bota é fator importante e determinante na sua sobrevivência no gelo, não é verdade? Mas é só isso? Né não meu povo! Cada parte do seu corpo que ficar despreparada ou desprotegida do frio vai comprometer todas as outras. Não adianta ter o casaco mais sensacional, a bota mais incrível e a  calça mais térmica do mundo e deixar a cabeça ou as mãos desprotegidas. O arsenal de guerra tem que ser completo, senão você não consegue chegar no ponto de ônibus.

Então vamos começar, e vamos por partes. Mas isso, só no próximo post!

Inté lá!
São meia noite, e eu estou sentada em silêncio no sofá da sala. Há 1 ano, nesse mesmo dia, nessa mesma hora, eu também estava sentada em silêncio, porém na poltrona de um avião. E olhava pela janelinha daquele pássaro de lata gigantesco que pairava pelo ar, e via tudo negro lá fora. Não via nada além de uma asa que de vez em quando tremulava me fazendo lembrar que eu não estava parada. Eu estava voando em direção ao desconhecido e bem longe do que até então era tudo o que eu conhecia. Agora, eu olho pela janela da sala do alto de um edifício de 10 andares, passados 365 dias, o céu está lá, escuro outra vez.

Doze meses se passaram, é fevereiro outra vez, e o dia amanhece um pouco nublado e meio preguiçoso. Está nevando, mas é tão tímida essa neve que preciso prestar bastante atenção para percebê-la. Nesse ano, o inverno todo está bem tímido. Há 1 ano, quando eu colocava pela primeira vez meus pés no Canadá, tudo o que eu conseguia sentir era frio. Os 19 graus negativos não eram nada tímidos, me impediam de sentir medo, ansiedade, fome, cansaço ou qualquer outra coisa que não fosse frio. Fiz tudo automaticamente ou talvez anestesiada. No ônibus, segurava em uma mão a mala e na outra um pedacinho de papel com o endereço para onde estava indo. Não conseguia entender o que se passava lá fora, a paisagem as vezes era marrom e as vezes era branca, culpa do vidro sujo de neve. O ônibus parou e eu então desci. Era uma praça, dava para perceber pelas poucas partes dos bancos que se revelavam por entre os montes brancos de neve. Cheguei ao endereço, o pagamento foi acertado, as chaves entregues, subi para o apartamento e exausta, após um banho quente, cai desmaiada na cama.

A tarde dessa quarta-feira de fevereiro chegou, o dia ainda está nublado lá fora, mas vejam só, fazem 2 graus positivos! Tem pouca neve na rua e a que tem derrete lentamente deixando tudo molhado. Um ano atrás, nessa mesma hora, desse mesmo dia, eu acordava ainda cansada de uma longa viagem e ainda na cama tentava repassar tudo o que eu havia vivido nas últimas 24 horas, desde aquele momento em que olhava a lampada no teto daquele quarto até a última imagem que tinha da minha mãe, ficando cada vez mais pequenininha a medida que eu me afastava da rodoviária. Tudo parecia ter sido um sonho. Me levantei e fiquei longos minutos, desacreditada ainda, olhando pela janela, vendo a neve caindo lá fora, montes de neve que se acumulavam na beira do muro e nas bandeiras do Canadá que lá do alto de alguns prédios me diziam: Não é sonho, você conseguiu!

Hoje é meu aniversário de 1 ano, um ano que pareceu ter muito mais do que 12 meses. Um ano de sonhos realizados e outros tantos criados. Mas amanhã já serão 366 dias, e a contagem para os próximos 365 dias recomeçará. Mas não se preocupe, esse é o post de 1 ano, e ele ficará devidamente registrado, tratei de fazer um print da contagem do tempo e deixar ele bem aqui.

Para completar, deixo o vídeo que fiz quando o avião sobrevoava Montreal se preparando para pousar, faziam -19°C e eu nem sabia o que isso queria dizer...


Happy 365 days!





Preciso dizer mais alguma coisa?
Preciso sim! Ô gente, brasileiro tem cara de que, afinal?

A conclusão que chego é que eu tenho cara de qualquer coisa que pelas contas dos gringos parece ser de qualquer lugar que eles conhecem. E brasileiro esta fora dessa lista, claro. Eu tive que ouvir essa semana também que não tenho sotaque de brasileiro... Oi? O pior é quando o coleguinha em questão é outro brasileiro... tipo, crise de identidade total, né? rsss
Baseada em fatos reais

Pessoa desesperada pra falar é assim, busca todas as alternativas possíveis, inimagináveis e sobrenaturais para aprender de forma correta e rápida tudo aquilo que ela precisa para não perder mais nenhum dia da sua vida sem interagir com o porteiro ou o motorista do ônibus.

Não é novidade dizer que ouvir música ajuda a aprender o idioma, assistir filme com a legenda em inglês, ler o jornal, fazer as lições do LiveMocha, usar os CDs da Rosetta Stone...

Eu já tentei (e continuo tentando) de tudo.  Não tenho um método que eu ache mais eficiente, mas tem o que eu mais gosto, que é assistir filme, seriados de TV e desenhos. Na verdade eu sempre gostei, e talvez seja por isso que se tornou o caminho mais confortável pra mim.

É claro que você pode continuar fazendo suas simpatias, usando seus patuás, subindo a escadaria da Penha de joelhos recitando todos os tempos verbais ou ainda dormir com a gramatica debaixo do travesseiro! Toda ajuda é valida... rsss

Acho que o segredo do aprendizado é continuidade, não pode parar! Eu mesma durante as férias, aproveitava meus momentos de ócio para assistir tv. Num dia desses, marido ligou no meio da tarde pra saber o que eu estava fazendo (só checar, sabe?) e ficou muito contente em saber:

- Alô.
- Oi bem, o que você está fazendo?
- Tô assistindo tv.
- E o que você está vendo?
- Desenho...
- Puxa, isso mesmo! Desenho é ótimo para aprender, a linguagem é simples e fácil de entender pra quem está aprendendo, as coisas são intuitivas... (disse marido cheio de orgulho) E o que você está assistindo?
- Tom and Jerry...
Silêncio...




Vai, bem melhor do que estar no shopping interagindo com o cartão de crédito, não é? (ele concorda) rssss